Editorial

Setembro / 2010
A Ética do Ensino X O Ensino da Ética

Em uma época em que todos buscam pelos seus direitos e as Comissões de Ética dos Conselhos se encontram repletas de afazeres, não se pode admitir que as instituições de ensino deixem de ministrar ética nos cursos de graduação.

É preocupante o número de profissionais que, notificados pelo CRO-RJ por haverem cometido alguma infração ética, se surpreendem com o fato e declaram que não sabiam estar praticando um ato previsto como anti-ético pelo Código de Ética Odontológica.
Tal situação é constatada tanto pela Fiscalização quanto pela Comissão de Ética do nosso Conselho.

Por sua vez, a Ouvidoria do CRO-RJ recebe um crescente número de consultas encaminhadas por colegas, que revelam o mais profundo desconhecimento do Código de Ética Odontológica.

Há cirurgiões-dentistas que, com nítido menosprezo pelos interesses alheios, chegam a buscar orientação do Conselho, com o objetivo de fraudar os direitos trabalhistas de outros colegas.

Verifica-se que a maioria dos colegas que se envolvem nas situações descritas é jovem, apresenta pouco tempo de exercício profissional e é oriunda, em grande parte, de algumas instituições de ensino que apresentam um ponto em comum: Não oferecem a mais básica formação de ética odontológica em seus cursos de graduação.

Como já nos manifestamos aqui em outra oportunidade, o Conselho não tem competência e, portanto, não pode pretender legislar sobre o ensino da odontologia.

Porém, quando o desconhecimento das bases éticas influencia a relação dos profissionais com os colegas e a sociedade, não há como fazer de conta que o problema não se encontra entre nós.

O absurdo chega ao ponto de alguns cirurgiões-dentistas, após perceberem que se prejudicaram pelo desconhecimento das normas éticas, declararem que nunca tiveram aula disso. Outros, dizem ter tido uma ou duas aulas sobre Ética, ministrada por professor de outra área, que entrou na sala de aula, dizendo estar ali apenas para colaborar, mas não entendia nada do assunto.

Tais colegas informaram que o professor se limitou a ler o "livrinho da ética", sem explicar ou exemplificar nada, sob o argumento de não ser da área.

Há ainda os que admitem que o conteúdo de Ética foi ministrado como ensino à distância, em que os alunos liam o conteúdo das aulas no computador, mas como as questões de prova não variavam e as respostas eram passadas pelos colegas de turmas mais adiantados, todos tiravam sempre dez.

Em uma época em que todos buscam pelos seus direitos e as Comissões de Ética dos Conselhos se encontram repletas de afazeres, não se pode admitir que as instituições de ensino deixem de ministrar ética nos cursos de graduação.

Nada justifica o não cumprimento do objetivo proposto - educar o aluno.
O dever de sigilo nos impede de enumerar as instituições que não ministram ética odontológica.

Contudo, é certo que os diretores/coordenadores de tais instituições de ensino possuem plena consciência do fato e que, ao não proporcionarem formação ética para os seus alunos, deixam-nos despreparados para o exercício profissional em um mundo que, por ser cada vez mais competitivo, valoriza de forma crescente os princípios éticos.

Cabe aqui uma pergunta: Que tempos são estes em que um professor se presta ao triste papel de entrar em sala de aula e reconhecer perante os alunos que não conhece nada do assunto que se propõe abordar?

Com a palavra, os diretores dos cursos de graduação em Odontologia.

Afonso Fernandes Rocha
Presidente


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