Editorial

Jeitinho e Solução
"...Do cirurgião-dentista se espera um jeitinho para tudo, ainda que não haja a reciprocidade do mundo que o cerca. A realidade é que o Brasil tem um grande número de mutilados bucais que precisam dos serviços da nossa categoria, que por sua vez se encontra mais do que nunca precisando trabalhar e ser remunerada de forma condigna. Se encontramos sempre um jeitinho para resolver os problemas dos pacientes, por que não buscar uma forma de solucionar o maior problema que nos aflige? A solução consiste em encontrar a maneira de nos aproximarmos dos que precisam dos nossos serviços. Com a palavra os profissionais da odontologia."
Alguém já disse que o jeitinho é o canivete suíço do brasileiro.
O livro Dando um Jeito no Jeitinho, de Lourenço Stelio Rega, mostra que desenvolvemos maneiras peculiares de resolver, ou pelo menos congelar temporariamente o que nos incomoda, pois há um código secreto entre nós brasileiros - "amanhãs" que nunca chegam; "apareça lá em casa", na realidade não é um convite, mas uma maneira de se despedir cordialmente; "virei se Deus quiser", significa "não conte com minha presença"; "já foi providenciado", ou seja, "ainda não vi o caso e não sei do que se trata"; "eu telefono mais tarde" e "a gente se vê" são sinônimos de "eu não tenho tempo agora".
Na Odontologia, o jeitinho é utilizado em sentido bem diferente e significa o cirurgião-dentista se adaptar de forma sutil a situações problemáticas e ter a capacidade de solucionar questões de maneira fora do convencional, o que diferencia e causa orgulho ao profissional brasileiro, mas reflete a condição em que se encontra a nossa sociedade.
Pacientes que em época não distante se submeteram a extensas reabilitações, mas que na atualidade, pela perda do poder aquisitivo, não têm condições de manter o padrão de tratamento odontológico, representam casos em que o jeitinho é a solução, criando um tipo de prestação de serviço odontológico tipicamente brasileiro, o "provisório-definitivo".
A migração para os convênios de pacientes antes particulares, que na nova condição, não têm direito aos serviços que estavam acostumados, mas desejam continuar a ser atendidos pelo mesmo profissional e esperam que haja um jeitinho para solucionar a questão.
É cada vez maior o número de pacientes que perguntam se não há um jeitinho de estender o pagamento além do término do tratamento.
Por outro lado, não há jeitinho para os prazos das contas e impostos que sobrecarregam o cirurgião-dentista.
Embora o dólar tenha baixado a sua cotação ao nível de anos atrás, para o CD, o preço do material importado não sofreu nenhuma redução - para isso não há jeito.
Os convênios não encontram um jeitinho de nos pagar em prazo menor ou de aumentar os valores pelos serviços prestados, embora invistam de forma crescente em propaganda sofisticada, o que se sabe não ser barato.
Como se vê, do cirurgião-dentista se espera um jeitinho para tudo, ainda que não haja a reciprocidade do mundo que o cerca.
A perversa e contraditória realidade é que o Brasil tem um grande número de mutilados bucais que precisam dos serviços da nossa categoria, que por sua vez se encontra mais do que nunca precisando trabalhar e ser remunerada de forma condigna.
Se encontramos sempre um jeitinho para resolver os problemas dos pacientes,
por que não buscar uma forma de solucionar o maior problema que nos aflige?
A solução consiste em encontrar a maneira de nos aproximarmos
dos que precisam dos nossos serviços.
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