Editorial

Setembro / 2008
Nível do Ensino e Profissão

Não há professores experientes e qualificados para ensinar? Por que não é oferecido um salário digno para que esses professores possam se dedicar ao ensino de modo adequado? Como os jovens formados em tais condições poderão se inserir no mercado de trabalho do Rio de Janeiro, onde o paciente é cada vez mais exigente e há um cirurgião-dentista para cada 600 habitantes?

Há quem diga que o ensino superior se expandiu de forma semelhante ao das lanchonetes de fast-food - em cada esquina se abriu uma faculdade. Qualquer escola se transformou em universidade. É comentário geral que o baixo nível do ensino está afetando todas as profissões.

Recentemente, o presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), manifestou-se sobre o tema, afirmou que agora o MEC está percebendo o erro cometido ao abrir exageradamente o ensino superior.

O CRO-RJ em momento algum se posicionou contra a oferta de oportunidade para aqueles que desejam estudar. Acreditamos que sem educação não há desenvolvimento. Porém, tornou-se preocupante o cenário em que estão se formando os profissionais.

Na Odontologia, o panorama não é diferente.

Até a década de 90, o recém-formado saía da faculdade com a insegurança natural de quem ainda não possui experiência para planejar grandes reabilitações orais, porém com o conhecimento fundamental para exercer a profissão, isto é, boa base em Dentística, que sempre foi o ganha-pão na clínica; capacidade para executar tratamento endodôntico em molares e suficiente experiência para planejar e executar casos simples de prótese, além de dar conta de alveoloplastias e de exodontias, inclusive de inclusos, apenas para citar alguns exemplos.

O curso era de quatro anos. O número de disciplinas era muito menor. Poucos eram os professores que possuíam mestrado e menos ainda o doutorado. A maioria dos que ensinava era quando muito especialista, mas se orgulhavam de fazer com as mãos.

O aluno era obrigado a se familiarizar com a rotina clínica e de laboratório, a utilizar o delineador para planejar uma removível a grampo, a esculpir e fundir restaurações metálicas, coroas e até as próteses parciais fixas dos seus pacientes. Tudo isso sob o constante fantasma da reprovação, caso não fosse atingida a produção mínima exigida no semestre.

Os tempos mudaram, o currículo aumentou junto com o tempo de duração do curso, porém, o aluno muitas vezes se forma sem ter dado alta a um paciente e sem a obrigação de completar a produção.

Um aluno do quarto ano, segundo o pai cirurgião-dentista, até agora só anestesiou manequins, restaurou dentes de plástico e realizou procedimentos clínicos virtuais. Disse ainda o nosso colega, que em conversa com formandos, descobriu que nenhum deles havia finalizado um caso de prótese total ou parcial em paciente e que mais de 70% dos professores tem menos de 30 anos e não trabalha em consultório particular.

Outro exemplo. Um respeitado professor de uma especialidade considerada nobre contou-nos recentemente que foi convocado pela direção da faculdade, para ser informado que a única forma de não ser demitido junto com a sua equipe, seria se todos aceitassem receber, pela mesma carga horária de trabalho, cinqüenta por cento do valor até então recebido. Por considerar a proposta vergonhosa, o professor não aceitou a proposta, preferindo ser demitido com toda a equipe.

À vista do exposto, surgem as perguntas: Não há professores experientes e qualificados para ensinar? Por que não é oferecido um salário digno para que esses professores possam se dedicar ao ensino de modo adequado? Como os jovens formados em tais condições poderão se inserir no mercado de trabalho do Rio de Janeiro, onde o paciente é cada vez mais exigente e há um cirurgião-dentista para cada 600 habitantes?

Fica aqui um apelo : ajudem-nos a encontrar as respostas e propor a soluções.

Afonso Fernandes Rocha
Presidente


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