Editorial

Janeiro 2008
Planejamento Estratégico

Cabe a nós, efetivos atores do teatro odontológico, meditar sobre as palavras de Bono Vox, cantor e guitarrista do grupo musical irlandês U2:
As pessoas precisam acreditar que podem mudar o mundo. Se deixarem de ter fé nisso, não restará nada, além da alienação”.


É inquestionável que a evolução científica da Odontologia permite, na atualidade, solução para a grande maioria das patologias bucais, dentro de padrões satisfatórios de qualidade.
Por sua vez, os profissionais preocupam-se, cada vez mais, em aprimorar os conhecimentos técnico-científicos, de modo a oferecer aos pacientes os mais avançados tratamentos disponíveis.
Prova plena de tais afirmações são as 4.771 presenças de colegas que assistiram aos 115 cursos promovidos pelo CRO-RJ ao longo de 2007.
Nunca houve tantos cursos de pós-graduação sendo oferecidos aos cirurgiões-dentistas, o que pode ser confirmado pelo aumento incessante de colegas que registram especialidades concluídas.
Cada vez mais se valoriza a promoção de saúde, em detrimento da atenção à doença.
Porém, o cirurgião-dentista, que é o agente responsável pelo atendimento clínico, cada vez mais se vê sujeito a questionáveis regras de mercado.
Diz-se que a Odontologia passa por uma fase de reorganização, pois o mercado de prestação de serviços odontológicos está esgotado.
Limitados pelas possibilidades de realização da oferta frente aos padrões de procura, alguns colegas buscam mecanismos de diferenciação profissional com estratégias destrutivas e maléficas, em uma prática à qual alguém já se referiu como concorrência predatória e autofágica.
A maioria, porém, sabe estar sendo avaliada pela quantidade de atos praticados, ao ponto de a qualidade dos serviços não ser na prática considerada, devido ao aumento da participação de intermediários, cuja atuação despersonaliza o exercício clínico da profissão, comprometendo o que nela há de mais sagrado – a relação profissional / paciente.
Não se pode fazer de conta que as empresas intermediadoras de atenção à saúde bucal trabalham em parceria com o cirurgião-dentista, como pretendem fazer crer, uma vez que o objetivo daquelas é administrar a arrecadação financeira e repassar o menor valor possível aos profissionais, assim como fazer aos profissionais exigências cada vez maiores, que vão desde os aspectos logísticos, como a obrigatoriedade do consultório estar informatizado, com internet de banda larga, até as exigências de produção, aliadas aos crescentes empecilhos que são criados aos usuários, de modo a que se utilizem cada vez menos do sistema.
Tal quadro é antagônico ao exercício clínico, não apenas devido à desproporção de poder que há entre as intermediadoras e aqueles que prestam diretamente os serviços odontológicos, mas também pelo crescente afastamento que se verifica entre a fria administração financeira empresarial e uma das disposições preliminares, que de acordo com o Código de Ética Odontológica, rege a nossa profissão – o benefício da saúde do ser humano e da coletividade, sem discriminação de qualquer forma ou pretexto.
Cabe a nós, efetivos atores do teatro odontológico, meditar sobre as palavras de Bono Vox, cantor e guitarrista do grupo musical irlandês U2: “As pessoas precisam acreditar que podem mudar o mundo. Se deixarem de ter fé nisso, não restará nada, além da alienação”.
O Conselho, a quem cabe zelar pelo prestígio e bom conceito da Odontologia, permanece vigilante com relação ao quadro acima descrito , necessitando contudo, que mais colegas se interessem em participar do efetivo planejamento das estratégias a serem utilizadas, contribuindo ainda com a sua implementação, razão de convocarmos os interessados a manterem contato conosco, através do e-mail afonso@cro-rj.org.br.

Afonso Fernandes Rocha
Presidente


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